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Crônica

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Por Ked Maria

A tarde de domingo é algo que tento evitar, deveria ser uma parte feliz da semana, afinal é o dia de descanso, porém esse espaço de tempo está perto demais do recomeço da segunda-feira e longe da leveza da sexta. No decorrer dos anos desenvolvi algumas técnicas para fugir da monotonia, como sair para barezinhos com amigos ou ir ao cinema, ficar em casa no geral termina comigo comendo chocolate, maratonando série com a sensação de estar jogando a minha vida fora. Acreditem, isso não é legal.

Essa semana as coisas não saíram muito bem planejadas, meus amigos estavam sem dinheiro e o cinema lotado acabaram com o plano B. Resolvi andar pela a cidade a procura de uma boa diversão, apesar de saber que domingo é o primeiro dia da semana e as pessoas insistem em tratar como o final dos tempos, o comércio quase não funciona o que reduz bastante as possibilidades de curtir a vida. Sento no primeiro copo sujo que encontro no centro, com o sertanejo depressivo tocando no fundo e depois de pedir uma cerveja gelada vou verificar o Tinder.

A garota que deu match na semana passada respondeu ao chamado para conhecer a minha boquinha linda, por sorte ela não queria esperar. A palavra “coincidência” nunca foi gentil nos meus primeiros encontros, mas em momentos em que o “nada para fazer” reina era melhor do que continuar desperdiçando o meu look “gótica-suave” naquele bar. Angélica era o nome da felizarda, que já chegou com uma garrafa de Budweiser na mão e um vestidinho básico preto, não quero me gabar mas formamos um lindo casal.

Toda animada a moça sugeriu irmos ao parque municipal, que aparentemente era a única coisa aberta nesse ovo chamado Belo Horizonte. Com o sorriso largo e a leveza do álcool, disse sim sem me preocupar com o número de crianças que teria naquele lugar. No caminho as mãos foram dadas e a conversa fluía do feminismo aos questionamentos do jovem adulto contemporâneo, não me pergunte o que diabos são essas questões, o fato é que aquela mulher era maravilhosa e eu a beijei agradecendo o Universo por não me botar mais em uma furada com aplicativos de relacionamentos.

A recepção do antro de diversões foi dada com os gritos de felicidade das crianças e o de desespero dos pais, os brinquedos que rodam, rodam e não saem do lugar ainda proporciona algum frio na barriga. Corri para comprar um picolé com gosto de isopor e minha parceira insistiu em tirar foto com os fotógrafos lambe-lambe. Coloquei um bom e velho rock in roll e o fone de ouvido foi dividido para encarar a Roda Gigante, com a cidade aos nossos pés o sentimento de sermos infinitas, definia o momento. A cabeça no ombro dela e o sorriso de paz veio confirmar que domingo é dia de rock bebê!

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Por Melina Cattoni

A mãe, no fim de semana, estende as roupas para a próxima semana. A filha, quando está desocupada, põe as roupas no varal a pedido da mãe. A senhora, dona de casa, para passar o tempo, pendura as roupas no varal. São muitos varais para pouca roupa, imagino se pudéssemos colocar outras coisas ali.

 

Imagino uma linha contínua e invisível. Todo local que alguém vá, é sempre acompanhada por ela. Nela é pendurado todas as experiências, pessoas, locais e, principalmente, cada sentimento presente naquela composição de fatos. Assim como para estender as roupas, podemos colocar essas composições à nossa maneira, com pregadores para fixá-las melhor, ou apenas colocar por cima da linha sem amarras. Ah, e claro, também podemos escolher o tamanho do espaço que ocupam.

 

O uso dos pregadores é para situações especiais, aquelas que queremos sempre por perto. Já, as colocadas por cima, são aquelas que são livres. Às vezes as esquecemos e outras vezes está presente. E em todas essas, temos a presença do vento, do sol e da chuva. Ah, o danado vento! Sempre com brisas leves ou ventanias intensas que derrubam tudo pela frente. Às vezes, é quem nos mostra o que está como passageiro ou como inquilino. E o sol e a chuva, nos mostram a resistência daquela composição. Talvez devêssemos olhar os espaços vazio em nosso varal.

 

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Por Débora Gomes – . as cores dela . – Parceira Contramão HUB

Sempre que chove, eu me lembro d’ocê. A sua mania meio breve de dançar debaixo dos primeiros pingos de tempestade, pra depois ficar olhando de esguio pela janela entreaberta, como a chuva cai e muda tudo lá fora. Cê gostava do cheiro da terra molhada lavando teu jeito rápido de respirar. Cê achava bonito o céu cinza ir se clareando à medida que tudo diminuía a intensidade e voltava a ser em cor. Eu dizia sempre que era lágrima do céu em ver a gente tão distante. Cê dizia que era de alegria por distância nenhuma separar nossos corações.

É por isso que, sempre que chove, eu fico em silêncio esperando passar. Mãe acha que é por medo dos trovões. E só ocê sabe que eu tô é me lembrando do medo que é esquecer. Li um poema uma vez que me ensinou que deslembrar demora. Que a gente tenta, tenta… Mas demora. Aí vou fazer café, ler um livro, pintar as unhas, comer um pedaço de bolo de chocolate com geleia de framboesa. Porque a gente esquece quando se distrai. Quando já nem se importa mais em esquecer ou lembrar: porque até disso a gente esquece.

E é um pouco por isso que eu não gosto quando chove. Me dá uma baita agonia que me faz preferir os intervalos secos entre agosto e setembro. Não há nada que eu possa fazer, a não ser escrever a mesma rima pobre de quem perdeu até o jeito de amar sem pressa, sem gerúndio, sem sinônimo, sem ponto final. Jeito de quem se esforça pra não pedir pr’ocê voltar. Jeito de quem rascunha um punhado de carta, mas sequer envia, porque silêncios magoam mais que qualquer desamor.

Porque eu sempre vou me lembrar d’ocê quando chove. Basta começar a nublar que a lembrança já fica pronta na beira, pra se jogar no abismo de mim. Teus olhos pequenos, teu sorriso de menino que é livre e nunca soube ser raiz, tua melodia carregada no próprio nome, teus desejos de que eu fosse feliz. Quando abre um sol sem preguiça, desses dos entardeceres de verão, eu me esperanço toda. Mas, no fundo, eu sei… Que desde que cê escolheu ir embora, fez-se uma bagunça na estação do meu peito e tem chovido todo santo dia, do lado de dentro de mim.

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Por Giovanna Silveira – Metrica Livre – Parceira Contramão HUB

Ela ficaria lá por horas, se deixassem. Sentada na cadeira de canto da cozinha, contando aos netos ou para quem passasse por ali as infindáveis histórias de quando ainda morava no interior, e vivia como a ovelha mais desgarrada que se pode imaginar de um rebanho. E com saliva de orgulho renascido, ela então narra a memória mais vívida que ainda centelhava a cabeça. E começava:

 – Eu já contei pra vocês da vez em que eu fugi do colégio e nunca mais voltei?

– Já Vó, foi aquela vez qu..

– Pois então, foi assim: Eu tava lá na aula de matemática do 3° ano do colegial, naquela época se passasse pro 4° ano já poderia fazer um magistério sabiam? Érr, então, uma certa vez minha professora viu que estava conversando demais e trocando bilhetes com minhas colegas, e foi aí que ela fez a ameaça e gritou pra sala toda ouvir: “LUZIA!! Amanhã quero você aqui na frente da turma, recitando a tabuada toda! Não quero saber de chororô. Se não vier vai reprovar!” – Eu fiquei vermelha até o último fio de cabelo… E no meio da aula comecei a maquinar como eu ia fazer pra me livrar de recitar a tabuada na frente de todos os meus colegas. Até que eu pensei… ah! Seria tão ruim assim reprovar? Pff, nem liguei. Só sei que pensei no dia seguinte em vestir meu uniforme, e ao invés de seguir o percurso pra escola, segui pro canavial de papai. Já que eu teria que passar umas horas fora, que fosse trabalhando, não é? E assim eu fiz… uma, duas, três semanas trabalhando no campo. E eu gostava bem viu! Até trouxe minha irmã, que já não estava mais gostando das aulas, e ela se juntou ao meu esquema de trabalho voluntário na fazenda de papai.

E tudo estava indo bem, até o dia que a casa caiu pra nós duas –

Sempre quando chegava a esse clímax da história, ela sorria de uma forma indescritível;

– Meu pai foi para a beira da estrada esperar que a gente voltasse da escola, com o grupo de meninas que sempre nos acompanhavam… até que ele notou que nós não estávamos lá, e chamou a atenção delas: “Cadê Luzia? Efigênia? Não voltou com vocês não?” – E a partir daí só sei que elas contaram a verdade nua e crua, nós fugimos da escola por causa da matemática.

Eu morria de medo de papai, ele fazia o porte bravo e ditador, que só de olhar você já sabia que estava em apuro… então ele veio, bufando de volta para a casa contar para minha mãe a novidade e convocar meus irmãos a procurar as irmãs noviças pela cidade. Foi aí, que como já era hora, voltamos pra casa de uniformes e mochilas como se nada tivesse acontecido e nos deparamos com a cena, o circo pegando fogo e já não tinha mais jeito, contamos tudo.

– É engraçado lembrar, que depois de tanto esbravejar, quando papai soube que eu e Efigênia matamos aula para trabalhar no canavial, ele abriu um sorriso maior que o rosto…

A essa altura ela gargalhava!

– Papai era terrível, Deus o perdoe…

 Sua feição muda para uma nostalgia quase palpável

– Eu fugi da matemática, fugi da vergonha. Não me arrependo não, pelo menos nunca esqueci a tabuada!

Era impossível não ouvir. Era impossível não emprestar os ouvidos a cada detalhe minucioso e manjado da história de fuga mais engraçada e astuta já tida em tempos. E tão somente ela sabia como contar suas histórias… reforçar um detalhe, esconder outro, só para fazer parecer um interesse súbito dos ouvintes a cada vez que contava. Feliz de quem, assim como eu, ouviu os contos vivos de Luzia.

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Em memória da luz mais bonita que já brilhou sobre mim, Luzia.

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Por Auspicioso Acapela – Parceiro Contramão HUB

Ela conhece o passado e vive o presente. Acorda todos os dias com o barulho do despertador, pensando nos cinco minutinhos a mais que ela pode ficar na cama. Quando se levanta, a cabeça já ligada no 220, considera todas as pendências que precisam ser resolvidas no trabalho, e ao pegar o telefone visualiza a mensagem no grupo do WhatsApp da turma da faculdade, lembrando do relatório que precisa ser entregue. O dia já começa com malabarismos.

Ao chegar no trabalho despacha as demandas mais rápidas, enquanto abre um documento em branco no Google Drive para escrever o relatório durante o dia. Conforme as horas passam, novas tarefas surgem e o documento continua em branco. De tempos em tempos, bate o olho no relógio e realmente o tempo não para, a sensação é que se passa cada vez mais rápido. A inquietação surge e, ao mesmo tempo que está escrevendo, o telefone sem fio toca. Rapidamente, atende o telefone e volta para a frente do computador – “família escola, fulano, boa tarde!” – conforme a pessoa fala, o foco é dividido em dois. A ligação é resolvida, mas é necessária a impressão de um documento para ser entregue no primeiro andar. O relatório é deixado de lado e ao passo que o documento é impresso e o elevador é chamado, na cabeça é montada uma possível ideia para finalizar o trabalho da faculdade.

Cinco horas da tarde, bater o ponto e ir para a faculdade. Ao chegar, ir direto para o laboratório de acesso livre, fazer a conclusão do relatório, imprimir e entregar. Tchau, foi! Hahaha. No momento que é entregue, o peso do dia é retirado da cabeça e agora continuar as poucas horas do dia, para ao fim dar “olá” ao travesseiro.

Penso sobre a correria do dia a dia e o fato das pessoas serem colocadas sempre no modo multitarefa. Acredito que a maioria delas conhece o passado e vive o presente, mas sempre tentando visualizar o futuro. Questiono se essa situação realmente favorece o futuro, ou é apenas uma forma de desgaste humano. Talvez esteja na hora das pessoas cuidarem mais de si mesmas.

Por Melina Cattoni

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Foto Reprodução

Por Auspicioso Acapela – Coletivo parceiro Contramão HUB

Belo Horizonte, às seis horas da manhã, olho pela janela do quarto e observo as pessoas andando, algumas apressadas outras caminhando, reparo também algumas pessoas esperando o ônibus. Noto crianças e adolescentes com os uniformes das escolas do bairro e, principalmente, com os fones de ouvidos na orelha. Imagino se eles estão ouvindo música ou as notícias. Se minha avó estivesse viva, logo estaria falando – menina, tira esse trem do ouvido, quer ser assaltada? Você sem esse telefone não sobrevive! -. Rio com essa imagem na cabeça. Bom, hora sair e me tornar mais uma no meio da correria do dia a dia.

Estou na linha 8108 – Cidade Nova / Savassi, já sentei e me escorei na janela, quem sabe dá para tirar um cochilo. Na minha frente, ouço a conversa de um pai com o seu filho – já está na hora de começar a estudar para um concurso público, estabilidade financeira e carga horária reduzida. Você já pode parar de brincar de escrever. – Mesmo sonolenta, escuto a conversa com clareza.

Com a mente desligada, meu cérebro embaralha o pensamento da minha avó com a conversa. E de repente, minha cabeça tem uma estalo. O pensamento dela faz sentido. Ocorrem assaltos todos os dias e em diversas situações. Assalto – subst. masc. ataque repentino com uso de força, para retirar algo da pessoa –. Acabei de presenciar uma situação de assalto, o pai retirando o sonho do garoto. Paro para pensar em quantas situações, situações simples na verdade, em que as pessoas acham que tem o direito de abolir com algo de outro. Isso realmente é um assalto! Quem diria que quando minha avó puxava a minha orelha, ela tinha razão.

Subo a rua da Bahia, observo o movimento e realmente a frase “subir Bahia, descer Floresta” faz parte da vida de muitos mineiros, inclusive da minha. Com o pensamento da minha avó ainda na cabeça, imagino quantos sonhos já foram roubados naquele pequeno trajeto.