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*Por Bianca Morais

Se você está começando a ler aqui esperando que eu conte o significado profundo das siglas O-U-S, que formam o nome da banda OUS, então sinto em lhe contar que não tem significado nenhum.

Não é coruja em inglês e não tem nada a ver com mitologia da Índia.

Segundo Raphael Jardim, vocalista da banda, um amigo de escola, o Marcelo, se referia aos integrantes da banda dessa forma, uma variação de “OU”. Um OU elaborado, por assim dizer. É uma brincadeira interna entre amigos que criou um significado especial para eles.

E é entre amigos de escola também que nasceu essa banda. Eles se uniram inicialmente lá em 2001 (ultrapassando então a idade da Radiotape), com uma conexão musical muito forte, apesar de certas especificidades, elemento em comum como Beatles, Oasis e Foo Fighters, uniram 7 garotos do ensino médio que participaram de alguns festivais e depois acabaram seguindo caminhos diferentes.

Houve um intervalo entre 2002 até 2010, período em que tocavam apenas por diversão.

Mas foi cerca de 10 anos depois do início da banda que o Rapha e o Léo se encontraram  por coincidência na rua, trocaram uma ideia “Pô, por que a gente não volta a tocar?” Segundo o baterista foi assim que a banda se reuniu, e dessa vez com a intenção de um projeto mais sério.

A primeira formação profissional da banda então foi: Raphael Jardim (no vocal), Leonardo Ghudor (na bateria) e Henrique da Mata (na guitarra). O power trio. Nessa época viraram residentes no Collins Pub aonde chegaram a fazer mais de 100 shows. Tocavam covers, mas sempre procuravam mostrar também suas autorais.

Antes mesmo de se tornarem profissionais, lá no embrião da banda, eles já trabalhavam com autorais, os shows que faziam tinha covers, mas o foco sempre foi o autoral. No começo, essas músicas eram um tributo aos seus artistas favoritos, o que é supernormal em uma banda no início de carreira, ser influenciada pelo som que gosta.

Com o tempo vem também a maturidade, com os anos a banda OUS foi criando um som mais com a sua cara, uma personalidade só deles. A banda se define como rock alternativo, aquele rock moderno, um pouco pesado, um pouco clássico. Segundo eles, um pouco de The Killers com um pouco de Beatles.

As letras na maioria são compostas pelo Rapha e a melodia, na maior parte pelo Leo. O Rapha dá os temas e o Léo o ritmo e melodia, trabalham juntos no estúdio fazendo a fusão dessas ideias.

Rapha é um compositor diferenciado, enquanto muitos se inspiram apenas em experiências pessoais, o vocalista da Ous se inspira também em fantasias. Apaixonado por literatura, além das situações que vive em seu dia a dia ele gosta de pegar elementos de livros que leu.

Admirável mundo: O nome da canção não é uma mera coincidência com o livro Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley, um dos favoritos de Raphael Jardim. Segundo o músico, o livro conta a história de uma sociedade escrava do entretenimento onde as pessoas sofrem de depressão e tomam um remédio, o Soma, para sobreviver à doença. O livro marcou muito o cantor que uniu a história a uma experiência que viveu. Um dia, caminhando com seu cachorro pelo seu bairro, descobriu que uma menina havia se suicidado bem no lugar onde ele passava todos os dias, poucas horas antes dele passar por lá. Isso foi algo que lhe marcou muito, pois caso tivesse passado antes poderia estar ali no momento.

“Se tem alguém pra me salvar

Você

Me de às mãos  vamos voltar

O mundo é seu”

Ele casou essa experiência com o tema do livro. “Como uma menina poderia querer tirar a vida?”. Uma coisa levou a outra e saiu a letra.

Se depois de ler toda essa história você acha que daí nasceu uma canção triste, você está errado. Porque não só de Rapha existe a Ous, mas também de Léo. Quando o vocalista chegou com a música para a banda, ele tinha uma ideia de ritmo que foi quebrada pelo baterista completamente.  Léo compôs a parte rítmica todo sozinho. É uma melodia animada, que dá vontade de chorar apesar da história da música, escutá-la da vontade de dançar.

Essa é a banda Ous, as letras registradas em conjunto são assinadas por todos, são músicas verdadeiras, que tentam se conectar com pessoas que se identificarem com a banda. Para eles o mais importante é fazer uma música criativa e original que leve as pessoas a terem interesse de escutar. Todo o resto, marketing, fazer show, para eles é acessório, o fundamental é uma música criativa, pois sem isso a banda não tem nada.

Diferente da maioria das bandas que você vai encontrar neste almanaque, a banda Ous tem composições em inglês e não é porque eles são antipatriotas, mas porque as músicas são escritas da forma como elas surgem na cabeça, então às vezes elas vêm em forma de melodia, outras como letra, ritmo, às vezes em inglês e às vezes em português. Mas eles se defendem dizendo que preferem as músicas em português, afinal, inglês está em um ambiente mais genérico, a maioria do mundo canta em inglês, mas em português fica mais autêntico.

Para treinar um pouco seu inglês escute aí: Speechless (a favorita do Rapha).

Durante muito tempo a composição da banda foi Rapha, Léo e Henrique. Em 2013, buscando uma forma de dedicar mais tempo à banda, Rapha e Léo pediram demissão de seus respectivos empregos, porém Henrique tinha outras prioridades profissionais e escolheu se dedicar à carreira de advogado, foi então que saiu do grupo. Como grandes amigos, a saída de Henrique abalou muito a banda, que começou a refletir se queria mesmo continuar.

Será que tá funcionando?

Será que a gente é talentosa o suficiente para fazer isso?

Será que vai ter gente querendo ouvir a gente?

Toda boa banda já pensou em algum momento em desistir, porém a resiliência e a vontade de fazer dar certo serviu de incentivo para eles continuarem.

Henrique da Mata posteriormente acabou engatando um projeto solo, a banda ous chegou a gravar com ele seu disco solo, assim também como Henrique continuou a tocar algumas vezes com eles, entre essas vezes a gravação de Paris. Confira a música Mar aberto e também todo o ep Liberdade nas plataformas de streaming.

O dia 7 de junho de 2014:

Essa data é mais que especial para a banda Ous, pois foi o lançamento do seu primeiro EP, o “Amor Vincit”, no Studio Bar. E não foi uma noite especial só para eles, naquele sábado além do lançamento do primeiro EP da Ous, a Radiotape lançava seu EP “Novo dia” e a Devise (vamos falar deles na sequência) lança seu cd “Lume”. Bandas autorais lançando de forma independente trabalhos autorais em uma casa de show lotada. A memória é fresca na mente de todos os membros dessas bandas.

Rapha e Léo relembram o momento de “banda à moda antiga”, todos eles reunidos no camarim antes e depois dos shows. Ali ninguém tinha estourado, mas o clima de amizade e cumplicidade, de sentir que o movimento das bandas estava acontecendo, que realmente tinha um público que estava escutando e cantando a músicas deles e a união para fazer um evento por conta própria despertava a sensação de que seus projetos estavam dando certo.

 

*Esse é um produto resultado do Trabalho de Conclusão de Curso do Centro Universitário Una da Jornalista Bianca Morais.

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*Por Bianca Morais

Hoje vamos apresentar a primeira Banda do Almanaque Bandas Independentes. Venha conhecer a história da Radiotape, há 14 anos na estrada, os rapazes já viram todo o cenário da música de BH crescer e evoluir. Para quem curte um rock vale a pena conferir.

Badaró deu à luz a Radiotape (ao EP também, mas falamos mais pra frente) no ano de 2006. Vindo de Ubá, trouxe consigo as ideias no papel e no violão. 14 anos de banda não é para qualquer um, por isso seus integrantes mudaram muito desde o começo até hoje. Muitos amigos passaram pela banda que, atualmente, tem como formação Adilson Badaró nos vocais, Bruno Bentes na bateria, Henrique Rocha na guitarra e Bruno Groth no baixo.

“Banda é aquele negócio, você vai fazendo, mas sua vida vai tomando um monte de direção”, conta Badaró.

Em 2010, o segundo integrante mais antigo entrou na banda, o Bentes. Após a saída do antigo baterista, Caputo, que havia começado com o Badaró a banda, a Radiotape procurava por alguém para ocupar o seu lugar. Por indicação de amigos em comum e, por tocar Beatles e Strokes, as ideias foram batendo, Badaró e Sallum convidaram o Bentes para tocar com eles e está aí até hoje.

*Pode ser que quando você for a um show da Radiotape, da Ous ou da Devise, vai escutar a galera chamando o Bentes de Frendes, e não, você não está confundindo um nome com o outro. Às vezes ele é o Bentes e às vezes ele é o Frendes, e às vezes todo mundo é Frendes.

Confuso? Sim. Mas vou tentar explicar. O Badaró tem um amigo no trabalho que sempre chegava e falava “Fala, Frendes”. Um dia, o Badaró foi perguntar para ele o porquê dele sempre chamar todo mundo de frendes, e ele explicou que friends é amigo em inglês.

Explicação óbvia? Poderia até ser, se não fosse por causa do Bentes. Quando o Badaró conheceu o Bentes, ele já usava o frendes e explicou o sentido para ele. Acontece que o Bentes começou a falar Frendes mais que todo mundo, e então todo mundo passou a chamá-lo de frendes. A combinação com o nome? Coincidência.

Não sei se consegui ser clara o suficiente na explicação, mas acredito que se você tentar ler mais umas cinco vezes você consegue, vai lá, faz um esforço.

BH É UM OVO e eu vou explicar o porquê.

Acasos não acontecem nessa banda, ou acontecem. O Henrique, talvez você o conheça por Toxina, ou talvez você nem o conheça, é primo da Verônica, que é noiva do Badaró, que o indicou para tocar baixo na banda. O Badaró já conhecia o Toxina de outros rolês. Mais precisamente pelo tal de Rodner que estudou com Henrique na UEMG em 2009 e o levou para tomar uma na Savassi e, chegando lá, conheceu o amigo dele, o Badaró. Então não foi difícil sua entrada na banda lá em meados de maio de 2016. Ele entrou no final da gravação do EP Luz.

O EP conta com as faixas Luz, Capataz, Fotossíntese e Vou Seguir. Confira nas plataformas de streaming.

O nome Toxina, segundo ele, vem lá de sua antiga banda de hardcore no colégio.

E mais um acaso? A Verônica, noiva do Badaró, também é cantora independente. Confira nas plataformas a música “Além de mim”.

O Groth já conhecia o som da Radiotape por meio do Bentes por tocarem nos mesmos lugares com suas bandas covers de indie rock: a Konk e a Juicebox. Em 2017, a banda se encontrava sem baixista para um show depois que o Raphael Jardim, da banda Ous (falaremos dela na sequência) que estava tocando na Radiotape precisou sair. Bruno entrou, fez um show rápido, e desde então não saiu mais.

Lembra que eu pedi para se concentrarem nos detalhes, certo? Ainda tem muita história para descosturar nesse rock independente de BH.

Radiotape: Assim como a maneira que Badaró escutava as músicas na sua infância e adolescência, sempre em fita, as primeiras gravações da banda também eram gravadas nelas. Por isso, do inglês tape, a banda Radiotape. Caso estejam se perguntando, a pronúncia correta é: rádio (em português) e tape (em inglês) = Radiotape. Junta aí e é só sucesso.

A Radiotape não gosta de rótulos. Produz suas músicas, mas também se diverte tocando músicas das bandas que gostam. Em suas letras autorais você encontra a mistura de todas as influências, desde o pop rock até o britpop. Segundo eles, é um som bem orgânico e nada industrial. Eles fazem música de forma natural e porque gostam de fazer isso.

Se para alguns o rock está morto, para eles está bem vivo e não têm medo de explorá-lo cada vez mais.

A mistureba da Radiotape:

Tem Oasis, Led Zeppelin, Beatles;

Tem Legião Urbana, tem Capital Inicial, tem Skank;

Tem Clube da Esquina (como todo bom mineiro que faz música);

Tem aqueles que dizem que lembra um pouco Cachorro Grande;

Tem o Badaró que carrega consigo suas raízes caipiras e tem também o Henrique acelerado no hardcore.

Cada um acrescenta e agrega um pouco ao som.

Na hora de compor, é o Badaró que chega com a melodia cantarolada e então só depois a letra vem aparecendo. Melodia é a raiz da letra.

Tonight: É um exemplo de música que veio do cantarolado de Badaró e depois quem disse que conseguiram substituir a palavra tonight? A banda sem rótulos não viu nisso um problema e resolveu manter a palavra em inglês.

A canção é sobre nossa sensação na noite, de liberdade, despreocupação.

“Quando perceber que é fácil, se perder pelo espaço, quero não sentir limites, TONIGHT.

Vou sair ter que voltar, se perder não quero procurar, vou dormir sem ter que acordar”.

Aproveitando a pegada de “Tonight”, confira também “Enquanto os outros dormem”.

Enquanto os outros dormem, a Radiotape sai por BH curtindo o momento. A noite deles demora a terminar e, quando acaba, geralmente é lá no Rei do Pastel, tomando uma cachaça.

“Pegue o copo fique mais um pouco ainda temos muito para conversar. Oh não vá.

Sei que é tarde mas ainda é cedo nossas noites nunca vão se acabar antes das seis”.

Curiosidades

Em 2008 a banda abriu o show do Keane.

Agora o interessante da história está em como eles conseguiram.

Diferente do que acontece hoje em 2020, lá em 2008 não tinha isso de plataformas de streaming e quem queria divulgar suas músicas carregava um CD.

E foi assim que em um show do Little Joy, Badaró entregou um disco da Radiotape para o produtor do evento, falou da banda e que caso houvesse uma oportunidade, poderiam abrir um show da Patofu (humildes sempre). Conversa de porta de casa de show, como conta o vocalista da banda.

Esse produtor deixou esse CD no escritório, onde a secretária começou a ouvir.

Na época, a banda Fresno, que abriria os shows do Keane no Rio de Janeiro e São Paulo, não viria para BH, abrindo as portas para as bandas da capital. O produtor então juntou o material de algumas bandas e a secretária dele colocou junto o CD da Radiotape, dizendo ter gostado muito do som. Esse material foi enviado à produção do Keane, que escolheu a banda Radiotape.

“Gratidão eterna à secretária que curtiu nosso som”.

Para a banda, eles não miram um público específico, fazem as músicas e esperam atingir quem se identifica com elas.

 

 

*Esse é um produto resultado do Trabalho de Conclusão de Curso do Centro Universitário Una da Jornalista Bianca Morais.

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Uma série dedicada às bandas independentes da capital mineira

*Por Bianca Morais

O Jornal Contramão, a partir de hoje, apresentará uma vez por semana histórias do Almanaque Bandas Independentes, produzido como meu Trabalho de Conclusão de Curso. No projeto entrevistei bandas independentes de Belo Horizonte e contei um pouco sobre suas histórias. Para começar, apresento uma parcela sobre o cenário desses artistas que tem crescido nos últimos anos. Nesse trabalho passaram grupos bem conhecidos da capital mineira, são eles: Radiotape, Ous, Devise, Chico e o Mar, Matiza, Lamparina e a Primavera, Rosa Neon, Duetê, Papa Black e Daparte. Então, fique de olho aqui no nosso site e nas redes sociais que a cada semana traremos uma banda diferente.
Confere aí, vale a pena!

Um pouco de história 

Belo Horizonte é um berço de grandes compositores que construíram boas referências na história da música belorizontina. Porém, de um tempo para cá é possível visualizar uma movimentação maior do cenário da música independente crescendo, com muita gente produzindo conteúdo de qualidade.

A cena independente de BH vive então uma nova fase que já se repete há alguns anos.

Tudo começou na década de 60 com eles, os pioneiros, o Clube da Esquina. O movimento musical mostrou que mineiro sabe fazer música boa, com grandes nomes como Milton Nascimento, os irmãos Borges e Beto Guedes. O grupo serviu de ponta pé para o Brasil enxergar que Minas é berço de grandes artistas.

Anos depois, outras bandas marcaram o cenário musical belorizontino, foram elas Skank, Jota Quest, Pato Fu e Tianástacia, bandas que explodiram e fazem sucesso até hoje nas rádios do país.

Depois desse boom de bandas de pop rock lá no final dos anos 90 e início dos anos 2000, mais uma vez o cenário se apagou. Durante um bom tempo, as bandas de Beagá ficaram adormecidas e voltaram a acordar poucos anos atrás. Para ser mais específica, com o aparecimento da banda Lagum. Com os olhares sempre voltados para Rio de Janeiro e São Paulo, a banda mineira apareceu e conquistou o Brasil inteiro com o hit Deixa, voltando os holofotes mais uma vez para a capital mineira.

O almanaque

Mas esse almanaque não está aqui para contar sobre essas bandas famosas, essas vocês já conhecem. Vou contar como a Lagum e todas as outras bandas servem de motivação para as demais bandas correrem atrás do sucesso. Depois de tanto tempo sem alguém de fato progredir, a Lagum explodiu, incentivando quem estava com sede de correr atrás de fazer seu som.

Este é um almanaque sobre bandas independentes, com artistas que se expressam através de suas próprias músicas, independentemente do grande mercado da música nacional. Fazem, assim, parte de um movimento cultural local. Durante muitos anos, antes que a Lagum aparecesse, Belo Horizonte viveu uma efervescência de música cover. O Circuito do Rock, formado por três casas noturnas (hoje apenas duas em funcionamento), foi o grande incentivo para isso. Ir para um lugar beber e escutar músicas que você já conhece parece um plano perfeito para um sábado a noite, certo?

E por anos isso ficou na cabeça de muitos. Mas tocar música de outros artistas acaba despertando a vontade de produzir algo seu, de se arriscar, e a capital mineira tem dado toda a motivação possível.

A cabeça dos contratantes também vem mudando. Se antes era somente cover e pouca liberdade para mostrar o autoral, hoje eles têm dado espaço para a galera que tem algo novo e diferente para mostrar. Afinal, no futuro você não vai querer ser o cara que disse “não” para aquela banda que está fazendo sucesso nas rádios e televisões.

Grandes festivais na cidade como o Planeta Brasil e o Sarará, que recebem pessoas de todos os estados brasileiros e até atrações internacionais, têm dado muito espaço para essas bandas independentes se apresentarem, fazendo palcos como o “Locais”, onde se apresentam artistas da própria cidade.

Cada vez mais, essas bandas têm se unido e criado festivais independentes para tocarem; e o mais interessante é que o público está realmente pagando, comparecendo e valorizando esse cenário. A vontade de conhecer coisa nova tem aparecido aos poucos na mente das pessoas.

O comportamento tem mudado e a esperança dos artistas de fazer esse movimento dar certo, também.

“Se aqueles caras da Lagum fizeram e deram certo, por que eu não vou tentar também?”

O cenário sempre existiu, mas agora com mais destaque e diversidade de estilos. Um dos fatores que motiva essas bandas a se arriscarem é a democratização do acesso. A internet e a facilidade de conhecer conteúdo novo caminha ao lado do trabalho independente.

É um momento muito bonito e justamente por isso não foi nada fácil selecionar as 10 bandas que aqui estão.

Todos os nichos e gêneros têm artistas fazendo um trabalho maravilhoso, mas para poder registrar e mostrar um pouco do que está acontecendo selecionei bandas de rock e pop em que cada membro (vocal, guitarra, baixo, bateria, teclado, entre outros) tem seu papel único.

A quantidade de bandas não faz diferença porque não é um mercado de competição. Na área cultural, quanto mais diversidade, mais fácil a visibilidade de cada uma no todo. Uma banda puxa a outra e ninguém se sobressai.

Espero que goste e até semana que vem!

 

 

*Esse é um produto resultado do Trabalho de Conclusão de Curso do Centro Universitário Una da Jornalista Bianca Morais.

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*Por Thainá Hoehne

Cronixta, antes conhecido como Dime Cronista, é um artista vindo de cima do mapa. Nascido em Belém do Pará. O músico paraense lançou no último dia 26 de junho, seu primeiro álbum completo nomeado “Maiandeua”, e revela aos belorizontinos a profundidade do trabalho que faz parte do projeto Manifesto Maiandeua.

O disco conta com oito faixas sonoras, além de um filme em parceria com Raphael Savelkoul e direção criativa da Noyze e pretende ressignificar as origens do cantor, através de músicas que exploram as sonoridades da sua região e que mostram a realidade de cidades ribeirinhas que sofrem, principalmente, pela falta de saneamento básico, violência e esquecimento social.

A equipe do Jornal Contramão conversou com o artista, confira a entrevista completa.

Podemos observar em seus projetos que a questão da sua origem é muito forte. Fazendo uma analogia, você concorda que uma árvore que mantém as raízes firmes, tende a crescer muito mais?

Aonde eu nasci a gente tem uma ligação muito forte com as nossas raízes. Acho que o paraense é muito bairrista e eu sou paraense, então eu trago esse bairrismo comigo mesmo e acredito muito que a minha arte está muito conectada com o meu lugar, por conta de toda a multipluralidade que existe no Pará.

Poderia citar principais influências ou inspirações que te constroem como artista?

Quando comecei a me entender por gente, as músicas que me abasteciam eram o Carimbó, o Zouk, o Tecnobrega, a Guitarrada, enfim, os ritmos que existem no Pará. Então, de certa forma, trazer essas características é algo muito natural mesmo, sabe? Ao invés de trazer uma guitarra americana, eu prefiro trazer uma guitarra paraense, porque eu trago a minha originalidade, a minha marca.

O esquema do disco nasceu de uma frase chamada Carimbolei, que tem na Maiandeua e com essa frase, eu vi que precisava entender que dentro da música, já existiam muitos registros, muitas marcas, e muitas digitais. Então eu precisava criar uma identidade própria, uma originalidade, pra me destacar nessas digitais também.

Eu queria muito que as pessoas conhecessem a musicalidade que existe no meu estado, na minha cidade, mas meu desejo era trazer algo mais moderno também. Eu queria muito misturar todas as influências que eu resgatei de fora e todas as que eu trago de dentro.”

Sua música “Belhell” traz à tona a simplicidade, a saudade e, na minha observação, um sentimento de amor por sua cidade. Nessa quarentena, tem sentido saudade das viagens também? Ela trouxe impactos negativos ou positivos aos seus projetos?

Olha, eu sinto saudades das viagens, de estar na rua, de ver os amigos. Eu sinto saudades de ir à  praia, sinto saudades de muitas coisas. Mas assim, ao mesmo tempo, a gente precisou entender que tudo tem o seu tempo. Tem o tempo da planta crescer, tem o tempo do meu disco sair, tem o tempo pra você começar a amar uma outra pessoa, então, esse tempo também é que a gente está vivendo. É o tempo que vai ser necessário que possamos entender e valorizar as coisas que de repente a gente nem dava valor.

Ficar mais dentro de casa, me fez ressignificar, refletir exatamente o que eu quero ser daqui pra frente. Fez ressignificar a minha relação com a minha esposa, valorizar cada plantinha que eu estou plantando, fazer com que coisas simples não sejam algo banal, porque normalmente, a gente quando está na correria banaliza o cotidiano, as pequenas coisas.

Sobre o Manifesto Maiandeua, como você enxerga esse projeto e a importância da mensagem que ele busca levar?

Tem uma artista lá do Pará,Berna Rea, que tem uma frase que eu quero muito fazer com que ela  realmente faça mais sentido para as pessoas quando conhecerem a minha origem. Que é: “a gente vive dentro do Brasil, a gente vive com a fartura, mas ao mesmo tempo, do lado, a gente vive com a miséria muito grande”.

Belém é uma cidade muito bonita em si, mas é muito miserável também. A Amazônia é muito farta, mas tem muita miséria. A gente tem abundância dos rios, mas falta água na torneira dos moradores da quebrada.

Belém é muito vibrante, é muito inspiradora, é muito maravilhosa, em muitos aspectos, mas, eu tinha que falar sobre isso também, sabe? Sobre essa fartura e sobre essa miséria ao mesmo tempo. Até pra ficar especificado no álbum que eu trato disso.  Eu venho falando da alegria do meu povo, venho falando do swing que existe em Belém, que existe no Brasil, mas existe o fascismo estabelecido desde o descobrimento de Cabral, então é até um aviso pro povo de Cabral começar a ficar cabreiro pra gente começar a colocar os “pingos nos is”.

Ultimamente temos visto diversas notícias sobre as dificuldades enfrentadas pela população indígena nessa pandemia, inclusive, solicitações de doações. Você conseguiria dizer, qual é a principal necessidade e como as pessoas daqui poderiam ajudar efetivamente, não só sobre a pandemia, mas também, sobre o esquecimento social?

Existem mil formas de divulgar, eu trabalhei em uma fundação cultural lá no Pará chamada Oficinas Curro Velho, e dentro dessa instituição eu tive a oportunidade de lidar com algumas aldeias, com alguns indígenas. Existem algumas tribos que são muito organizadas, a ponto de você achar elas, via web mesmo, que você pode contribuir financeiramente ou com algum serviço que você possa somar. Mas uma das coisas que eu percebo, que já seria de grande importância, é a gente começar a valorizar os nossos povos originais, sabe? Porque a gente não tem esse costume, essa valorização. Através da valorização, o respeito já começa a ser estabelecido.

Estou curiosa sobre a mudança de Dime Cronista para Cronixta, é possível falar sobre isso?

Eu sempre costumei a ler muito sobre pichação, a estudar sobre esse submundo. Certa vez eu li um texto de uma pesquisadora da pichação, falando sobre a pixação com X. A pixação com X, ela tem uma afronta tanto ao Aurélio, quanto a essa forma da estética que o branco e os colonizadores estabeleceram. A pixação tem uma ligação muito forte que bate de frente com essa estética do branco. Apesar de eu ser esse branco lá do Pará, eu me identifico muito com a cultura cabocla, indígena, porque são as minhas origens. O X, de certa forma era pra tocar no X das questões sociais. E aí eu fiz um paralelo a isso. Eu juntei o útil, que era o lance dos amigos mais próximos já chamarem desse jeito, ao lance da pixação e do afrontamento contra qualquer estética que já esteja pré-estabelecida.

E sobre a mudança do rap para seu novo estilo em carreira solo?

Eu acho que a maturidade, em algum momento da vida, chega de uma forma muito avassaladora. E acredito que o que me fez modificar em vários aspectos, foi o lance da verdade. Eu acho que quanto mais você é verdadeiro, mais facilidade as pessoas vão sentir na sua arte. E até com o que eu vinha desenvolvendo dentro do rap, o rap é muito marrento, é um ego muito grande que rola dentro. E eu não sou essa pessoa. É lógico que todos nós temos ego, mas eu não essa pessoa marrenta. Me encaro como uma criança que não cresceu, sabe? Eu brinco com tudo, eu rio de tudo, eu tiro onda com tudo. Lógico que existem momentos necessários para colocar o dedo na ferida também, mas ressignificar essa minha natureza e trazer o máximo de verdade, foi só entender quem eu sou mesmo e transparecer isso, seja através de uma letra, seja através da batida em si.

Teve um momento da vida que eu percebi que não, que eu não preciso criar uma letra que seja tão absurda que um outro MC precise se impressionar, na verdade, eu preciso me impressionar. Eu preciso estar cantando aquilo, estar pensando naquilo e falar: mano, esse sou eu do começo ao fim, sem tirar nada, sabe?

Em 2017, com o lançamento do single “Primatas”, que conta com a participação do cantor Garoá e o rapper Djonga, de Belo Horizonte, hoje conhecido em todo o Brasil como uma das maiores influências do rap, o que você mais pode aproveitar dessa experiência e conexão BH/Pará?

É karma, sabe? Todas as pessoas que a gente conhece, todas as pessoas que passam na nossa vida, é porque a gente precisa de fato ter elas passando pelo nosso caminho. Ele já viu o álbum e me deu um feedback muito positivo, sem ego, sabe? Então é uma amizade que ficou mesmo. Não tem ego, não tem um jogo de “ah, não vou ouvir porque agora eu já sou essa pessoa conhecida por todo Brasil”. Sempre quando a gente se fala é uma relação de muita pureza.

Conheça o trabalho:

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*A entrevista foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

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*foto: Flávio Souza Cruz

Já são mais de 20 anos de trabalho das três irmãs Ferraz, ao longo desse tempo foram sete CDs, espetáculos cênicos, parcerias e shows marcantes que fizeram do trio uma referência de música popular mineira.

Por: Fernanda Guimarães, Guilherme Sá, Italo Charles

Em entrevista para o Jornal Contramão, o trio conta um pouco sobre a sua história, a relação profissional entre irmãs e como a música proporcionou momentos de união à elas na construção de uma carreira sólida, estes foram alguns dos temas abordados. 

Três irmãs se juntam e formam um grupo de música reconhecido pelo seu apreço a música brasileira, voltando um pouco na história do trio, como surgiu a ideia do Amaranto? Esse nome, por exemplo, qual o significado?

Flávia nos responde a primeira pergunta contando um pouco da história do grupo.

“O surgimento do Amaranto foi a consequência natural da maneira como a música sempre esteve inserida na nossa vida. Sempre brincamos de cantar, exploramos nossa criatividade com música desde a infância, embora em nossa família não tenha havido antes de nós músicos profissionais. Na adolescência, passamos a estudar música e tivemos a sorte de fazer amizade com pessoas também envolvidas com o canto e com o estudo de instrumentos musicais, e formamos nossas primeiras bandas. Marina, a mais nova, não fez parte do grupo Flor de Cal – nossa primeira experiência profissional – mas nos ajudava a ensaiar e fazer arranjos. Assim, quando a banda acabou, foi natural prosseguirmos juntas, as três irmãs. 

Escolhemos este nome pela sonoridade e porque representa uma família de flores, conhecidas por sua perenidade. Para os povos antigos da América Latina, o amaranto era símbolo de força e imortalidade. Essa ideia casava bem com nosso desejo de ser um trabalho longevo. E assim tem sido! Parece que acertamos.”

 

São mais de 20 anos juntas, a que vocês atribuem uma parceria que dá certo a tanto tempo?

Flávia: “Faremos 22 anos de carreira em fevereiro! O principal segredo é que desenvolvemos constantemente a capacidade de reconhecer as diferenças individuais e aceitá-las bem, sabendo inclusive que isso é o que torna o trabalho bonito. No início, o foco é na identidade, naquilo que nos une e que nos faz um grupo coeso. Depois, as individualidades vão ganhando espaço e força, e vão – dialeticamente – reforçando nossa união. Não é simples, exige esforço, doação e muito amor. E não é porque somos irmãs que isso acontece naturalmente, é um processo contínuo que não pode ser negligenciado. E assim, vamos regando nossa plantinha, porque nossa meta é fazer bodas de ouro, como o Quarteto em Cy!”

 

Três cabeças pensantes, cada uma com suas particularidades, na hora de escolha de repertório, quais são as inspirações do amaranto? 

Flávia: “O processo de escolha de repertório sempre partiu de um desejo individual. Aquela que imagina a voz do Amaranto em alguma canção apresenta a ideia para as outras e se a ideia vibrar no coração das três, acatamos. Assim acontece também com nossas composições. Temos referências musicais semelhantes, mas nas buscas individuais mais coisas vão sendo acrescentadas às escolhas de cada uma. Atualmente, este processo flui muito naturalmente, sem conflitos.”

 

Diversos trabalhos entre CD’s e espetáculos ao longo desses anos, gostaria de saber, tem algum que marcou de forma especial ?

“Foram realmente muitos shows importantes na nossa carreira e cada um tem cantinho especial na nossa lembrança” 

Palavras da Lúcia, mas um show marcante para ela e para as irmãs foi o show de lançamento do CD Brasilêro em 2003.

“Fizemos um projeto de lei, com ingressos a preços populares super acessível, na época a gente tava tocando muito na rádio e foi um show muito emocionante. Não foi a primeira vez tocando no Palácio das Artes, a gente já tinha feito algumas participações em outros shows mas foi nossa primeira apresentação naquele espaço sozinhas. E aí teve a casa lotada, ingressos esgotados, pessoas que chegaram na porta para comprar, fizemos um show muito especial com criação de cenário e figurino, uma grande produção. Foi muito lindo tocar no Palácio das Artes que era para a gente o maior espaço de Belo Horizonte na época, realmente foi uma grande emoção.”

 

2008 o Amaranto faz sua primeira apresentação fora do Brasil, com certeza um momento muito importante na ampliação do trabalho do grupo, conta um pouco como foi essa experiência.

Lúcia: “Em 2008 a gente recebeu um convite da embaixada brasileira de Washington, era um evento sobre a cultura da música mineira e a gastronomia, foi uma alegria esse momento na nossa carreira porque foi a nossa primeira viagem internacional, conseguimos as passagens pelo edital de passagens do governo e como já tínhamos esse convite feito pela embaixada criamos a oportunidade de fazer um outro show em Nova York, no bar de música chamado cachaça de música variada, jazz e world music. Foi uma experiência muito legal apesar de não ampliar tanto nosso trabalho o fato de ter no currículo shows internacionais que tiveram uma receptividade do público muito boa, mostra que oportunidade é o que falta, tendo oportunidade o trabalho é bem recebido em outros lugares do mundo, e isso que é o mais importante. 

 

“Três Pontes” e “A menina dos Olhos Virados”, trabalhos dedicados ao público infantil, de onde parte o desejo da criação destes? E como foi a recepção?  

Marina Ferraz a irmã caçula do trio responde a pergunta, “Os dois trabalhos dedicados ao universo infantil do Amaranto, tiveram origens um pouco distintas, o Três Pontes  temos um trabalho baseado muito na receptividade que a gente tinha com as crianças no palco, a gente tocava músicas para adultos e as Crianças ficavam na beirada do palco escutando, no final do show era sempre cheio de crianças assistindo bem pertinho da gente, é isso que nos motivou a construir o Três Pontes. Já o segundo Trabalho foi um pouco diferente, motivada pelo percurso que eu, Marina Ferraz, tive com o teatro. Fiquei muito entusiasmada para colocar em prática meus inscritos, que Surgiram desde muito nova e tive vontade de levar a Lúcia e a Flávia para o palco,  levando o nosso universo infantil, coisas que a gente sempre fez quando criança. E aí eu escrevi essa história A Menina dos Olhos Virados que surgiu a partir da música Olhos Virados, é essa música que me fez criar uma história inteira com canções. A Menina dos Olhos Virados já foi uma coisa um pouquinho mais planejada e os dois trabalhos deram super certo, e agora estamos com um terceiro trabalho, Menino da Sem Palavras, que estaremos inaugurando agora no fim do ano em dezembro.”

A originalidade na composição dos arranjos é uma marca do Amaranto, explorando ao máximo todos recursos de voz e instrumentos. Como é feita a construção dessa identidade sempre citada por quem avalia o trabalho do trio?

Lúcia: “A construção dos arranjos vocais do Amaranto são feitas entre a gente mesmo, pelas três integrantes, a gente sempre faz os arranjos coletivamente na hora que tá experimentando a música. Então eu acho que talvez essa  originalidade tem a ver um pouco com as nossas experiências de criação musical da infância, dessa liberdade de compor e criar em cima de uma coisa que já existe, uma melodia já existente. E aí a gente vai experimentando, cantando e aos poucos as ideias vão surgindo e as que são interessantes ficam e as outras vão embora. A maneira é sempre intuitiva, apesar da gente ter o conhecimento musical, ter o estudo da música, na hora de criar a gente deixa a liberdade da brincadeira da criação coletiva. E a parte instrumental sempre é muito mais simples quando é só a gente e, quando tem outros músicos envolvidos é realmente sempre no coletivo. Eu acho que a gente tem essa ideia de que o coletivo sempre traz muitas possibilidades.”

A música feita aqui em minas tem grandes momentos como o clube da esquina, as bandas Jota Quest e Skank com grande força de mercado, e nos últimos tempos vem crescendo o Rap e o Samba. Tem um lugar para a música popular, como a feita por vocês nessa crescente? Retomando a tradição mineira no estilo?

Flávia: “Tem sim! Existe espaço para todos. Mas é preciso ter consciência de que o mercado da comunicação de massa escolhe pouca coisa para trabalhar e ampliar o alcance daquilo. Há bastante gente que curte música vocal (uma das tradições que resgatamos) e se vê representada pelo nosso nosso trabalho. A gente não se sente limitada por um estilo ou tradição. Vamos fazendo o que nos representa esteticamente e fazendo esforço de nos conectar àquelas pessoas a quem nossa arte faz sentido.”

 

Recentemente em entrevista com Mônica Bérgamo, da Folha de São Paulo, Milton Nascimento declara que: “música brasileira está uma merda”, como vocês avaliam o cenário musical atual?

Flávia: “A fala do Milton tinha foco em um tipo de produção musical presente hoje no Brasil. Ele próprio teve de esclarecer esta fala depois da publicação da entrevista. Makely Ka cunhou uma expressão que – para nós – representa muito bem o que acontece na música brasileira: “música orgânica”, em contraposição às “monoculturas, aos latifúndios musicais”. Há coisas maravilhosamente incríveis e inspiradoras sendo feitas na música brasileira sim. Há tanta coisa que é impossível se dar conta de tudo. Mas são trabalhos que são feitos com envolvimento direto de quem os cria em todas as etapas de sua produção. É como uma pequena propriedade, plantando e colhendo seus produtos, sem uso de aditivos químicos. Cultura de massa, desde que surgiu, é uma coisa diferente de Arte. Arte brota. É manifestação da essência do artista, de certa forma incontrolável, por ser absolutamente necessária para o artista. Isto que se planeja meticulosamente, com estudos de mercado, injeção de muito dinheiro, é diferente de arte. É da ordem do mundo do entretenimento – que de vez em quando encontra a arte sim – mas não isso acontece fortuitamente, não é o que se busca em primeira instância. Neste sentido, a arte e a música brasileira, andam muito bem, obrigada.

 

Quais os desafios de fazer música independente se popularizar entre os ouvintes que, hoje tem a mão diversas formas de consumo, como  plataformas de Streaming e Youtube, como o grupo trabalha nesta área ?

Flávia: “O maior desafio é fazer a música chegar a quem ela pode realmente fazer sentido, virar alimento da alma. É isso que o artista busca. Preocupamos com a ampliação do nosso público, mas não com um projeto de expansão exponencial. É um trabalho de formiguinha. Um a um. As conexões se dão por amizades, por compartilhamentos de interesses comuns. E o público que chega para nós por meio deste caminho, é muito fiel. É muito parceiro. Vira um divulgador e já divulga para as pessoas certas. Bate um desanima vez ou outra – mas a gente espera passar e segue firme! – é a quantidade de tempo que a gente despende com atividades extra-musicais, com criação de conteúdo para redes sociais etc. Mas não há outro caminho. Seguimos firmes.”

Em 2018 o grupo realizou na Fundação de Educação Artística (FEA)  um show para ajudar no programa social de bolsas de estudo. Qual a importância de ações como esta, principalmente nos dias atuais, onde a área cultural não recebe incentivo de fato?

Lúcia: “Eu acho que, a princípio são ações pequenas, e que às vezes parecem não surtir um grande efeito no mundo de hoje. Mas é só mesmo com elas para a gente sentir que alguma coisa está sendo feita, porque se não podemos contar com ações do governo, infelizmente, estamos mesmo em um período realmente muito triste para a cultura e para outras áreas, como as ações do governo não feitas e inclusive até o contrário na desvalorização da Cultura. Se a gente dá conta de fazer pequenas ações, já temos a sensação de que alguma coisa está sendo feita, pequena sementinhas estão sendo plantadas de alguma forma. É uma pena realmente as ações não serem maiores, mas quando cada um faz um pouquinho eu acho que o mundo vai se transformando, é o que a gente tem que tentar fazer hoje em dia, fazemos nossa parte dentro de casa e na música fica pensando no que fazer. Apesar dessa ação muito voltada para as bolsas, para ajuda nas bolsas, a gente tem feito outras nesse sentido, que se for para pensar a gente quase que não ganha, não recebe para fazer um show, para fazer um trabalho novo para lançar um projeto novo, mas a gente faz por amor a música e por amor a arte e por saber que isso faz diferença na vida de muita gente então acho que é assim que se começa do pequeno e aos poucos as coisas vão crescendo.

 

E para o futuro, quais são os planos? O que o grupo prepara para o público?

Marina: “O Amaranto tem para esse ano dois grandes projetos que a gente idealizou bem no comecinho e agora estão chegando na reta final. Um deles é o livro Menino da sem palavras, escrito por mim Marina Ferraz, e o CD homônimo  com canções compostas pela Lúcia Ferraz, Thiago Godoy, Marina Ferraz e Flávia, dedicado a nome de pessoas, esse CD vem encartado junto do livro que é infanto juvenil e também vem o áudio da peça que a gente adaptou para teatro, o lançamento será agora em Dezembro. Estamos muito feliz de ir mais uma vez para o Teatro, poder apresentar nosso trabalho junto da Daniele Braga e do Thiago Corrêa. E o outro é o Bendito jazz, o CD do show gravado em 2017 na sala Minas Gerais, realizado pelo Amaranto e o Trio Mitre, que é maravilhoso e a gente compôs um repertório com canções dos irmãos Gershwin e do Cole Porter, esse trabalho foi condensado no período muito curto, em um mês a gente ensaiou e criou os arranjos juntos e agora estamos tendo alegria de ter esse material, registrado no dia do show sem a gente saber pelo Murilo Correia. E agora juntamos esse material e estamos lançando em CD, então são esses os nossos projetos e, para os próximos anos terá novidades mas estamos primeiro concentrado nessa nessas duas grandes ideias.

*Entrevista realizada sob a supervisão do professor Aurélio Silva

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Por: Kedria Garcia
Atualizado 20/12/17 ás 12:49

“Não posso mais viver assim ao seu ladinho
Por isso colo meu ouvido no radinho de pilha
Pra te sintonizar sozinha, numa ilha.”
Titãs

Companheiro para as horas vagas, para limpar a casa, para a viagem, para cozinhar, para vibrar com o futebol, para mandar um beijo, para ouvir músicas e notícias, para entreter, consolar e principalmente acompanhar. O rádio entrou nas casas dos brasileiros nos anos de 1930 com a música popular, os programas de auditório, as radionovelas e continua afirmando sua presença até os dias atuais com humor e informação. Um gigante com quase 90 anos de história registrou de perto muitos conflitos da humanidade assim como o nascimento de novas tecnologias. Observou a televisão tomar o cantinho da sala e comandar os horários nobres, mas a frase “O novo supera o velho” já não assusta, pois, a reinvenção se tornou uma norma e o imaginário ainda é movido pelas ondas do rádio.

Elias Santos, de 47 anos, professor e radialista, afirma que o rádio tem suas características próprias descartando a ideia de substituição. “Quando a televisão surgiu, espalhou-se o boato que o rádio iria acabar. Eu acredito sempre naquilo em que trabalho dentro de sala de aula, o conceito em que o rádio, a TV, a internet são dispositivos. Um dispositivo não substitui o outro, mas um dispositivo modifica o outro.”, e completa dizendo que o rádio está em um processo de transformação devido ao contato com outras plataformas, como as redes sociais.

De acordo com uma pesquisa  realizada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, em 2015, o rádio era o segundo meio de comunicação mais utilizado pela população brasileira, perdendo apenas para a televisão. A pesquisa ainda ressalta que 63% dos ouvintes buscam por informação, diversão e entretenimento, sendo que 30% dos usuários ouvem diariamente, entre as 6h às 9h da manhã. As emissoras FMs são estimadas pelo público e as AMs fazem sucesso nas zonas rurais. Fernanda Oliveira Mendes, de 20 anos, não desgrudar do rádio. ” Ele é uma das minhas paixões, preciso sempre andar com um fone de ouvido em mãos para poder ouvir, no trabalho, no ônibus, em casa. Atualmente prefiro programas mais informativos como o Jornal da Manhã na Jovem Pan de São Paulo e Jornal Inconfidência na Rádio Inconfidência.”, relata a estagiária de Jornalismo.

 

“O rádio, por mais que seja um meio antigo, tende a se renovar de acordo com a sociedade.É verdade que o número de usuários diminuiu, mas ainda é uma área que vem se transformado. ”, comenta a estudante Fernanda Oliveira.

 

O radialista Elias, destaca que as ondas sonoras ainda é um meio eficiente e ágil. “O rádio atinge muitas pessoas, pelo fato que se consegue acompanhá-lo sem precisar interromper as tarefas diárias, então ele continua um meio muito eficaz. Isso não tem jeito, principalmente com um público de mais de 40 anos.”. A Pesquisa Brasileira de Mídia de 2015, revela que o uso do rádio é feito conjuntamente com outras atividades, como as domésticas e das refeições e ele apresenta 52% de confiança entre o público, tendo a A Voz do Brasil como o programa mais conhecido. Além de agir como um aglutinador social, ele serve como alimento para conversas corriqueiras.

Paulo Cesar Fernandes da Silva, de 57 anos, sintoniza diariamente seu amigo. “Escuto rádio desde menino, ou seja, ali pelos anos sessenta. Minha relação com o rádio é fraternal, ele é um excelente companheiro.”, afirma o microempresário.  Elias Santos ressalta que as mudanças na sociedade afetaram nas produções radialistas. “No início dos anos 90 tocava mais músicas, com o famoso jabá da indústria cultural, hoje não. Hoje temos um rádio que fala mais, seja piada, seja informação, seja jornalismo, o que se parece muito com o rádio dos anos de 1940 a 1950.”. 

Para ele, o cenário do rádio em Belo Horizonte é muito conservador “Temos uma rádio que é baseado em um modelo dos anos de ouro. Com aquele tipo de voz empostada, aqueles programas apresentados basicamente por homens, transmissões esportivas, jornalismo. No segmento adulto se tem um modelo em que toca sempre as mesmas músicas, não arrisca, não lança ninguém, trabalha em cima no que já é consolidado na indústria cultural”, desabafa o radialista que completa, “O rádio em BH é um rádio pouco ousado, mas apesar disso existem iniciativas interessantes como rádio UFMG Educativa, o momento que a rádio Inconfidência está passando, a rádio Autêntica a antiga Favela FM.”.

Pesquisa realizada em 2017, pela a Kantar IBOPE Media, mostrou que o brasileiro gasta cerca de 4h40min diariamente com a caixinha ligada. Sendo a Grande Belo Horizonte líder desse ranking, em que 95% dos belorizontinos afirmam ouvir rádio todos os dias. “Meu programa favorito se chama Casa Aberta, onde o lema é Cidadania, Cultura e Educação. Além dos programas O Samba Bate Outra Vez e a Turma do Bate Bola”, conclui Fernandes.

Podcast

“O mercado atual do rádio é o mesmo mercado da televisão e dos meios de
comunicação de massa, e ele está em crise. O rádio ele precisa se reconstruir e há
uma dificuldade muito grande para isso, uma vez que, as pessoas antigas não
saem do rádio e continuam trabalhando em cima de paradigmas antigos,
então é preciso que as pessoas novas ocupem esse espaço para que
possamos dinamiza-lo.”, declara o professor e radialista, Elias Santos.

A maior parte da audiência do rádio é composta por jovens entre 15 e 19 anos, revelam as pesquisas que incentivam a criação de outras plataformas como o podcast. O site Mundo Podcast traz a seguinte definição para esse termo: “É como um programa de rádio, porém sua diferença e vantagem primordial é o conteúdo sob demanda. Você pode ouvir o que quiser, na hora que bem entender. Basta acessar e clicar no play ou baixar o episódio.”. Os temas são variados além de ser considerada um meio mais democrático, pois qualquer usuário da internet consegue as instruções para produzir e divulgar seu conteúdo. A praticidade é o fator indispensável, o que chama a atenção e modifica a forma como se ouve e absorve as informações.

 

“-A Rádio Atividade leva até vocês
Mais um programa da séria série
“Dedique uma canção a quem você ama”
Eu tenho aqui em minhas mãos uma carta
Uma carta d’uma ouvinte que nos escreve
E assina com o singelo pseudônimo de
“Mariposa Apaixonada de Guadalupe”
Ela nos conta que no dia que seria
O dia do dia mais feliz de sua vida
Arlindo Orlando, seu noivo
Um caminhoneiro conhecido da pequena
E pacata cidade de Miracema do Norte
Fugiu, desapareceu, escafedeu-se
Oh! Arlindo Orlando, volte
Onde quer que você se encontre
Volte para o seio de sua amada
Ela espera ver aquele caminhão voltando
De faróis baixos e pára-choque duro
Agora uma canção canta pra mim
Eu não quero ver você triste assim.”
Blitz